A tapeçaria de Aracne
Há muito, muito tempo, na Grécia Antiga contavam que Palas, a deusa da Sabedoria (que mais tarde os romanos chamariam de Minerva), ensinava todos os segredos de fiação e tecelagem a uma moça chamada Aracne. Aracne era de origem humilde, mas se tornou tão habilidosa com os fios e tramas, que até as ninfas dos bosques e dos rios vinham vê-la trabalhar. Não só porque os tecidos que fazia eram incomparáveis, mas até porque a graça de seus movimentos tinha a beleza de uma arte, desde que puxava os chumaços de lã ou cânhamo até quando a fazia novelos e meadas. E, principalmente, depois, quando a linha macia e longa se convertia em belos panos num tear ou era ricamente bordada em desenhos divinos. Divinos, sim. Pois todos os que viam o trabalho de Aracne logo concluíam que ela aprendera seu ofício com Palas, e cobriam a deusa de louvores.
Ora, quanto mais atenção atraía, mais Aracne se ofendia com os elogios a Palas e negava qualquer mérito à deusa. Até que certo dia acabou exclamando:
- Sou muito melhor tecelã que Palas! Se ela viesse competir comigo, todos iam ver isso. E, se me vencesse, poderia fazer comigo o que quisesse.
Antes de aceitar o desafio, a deusa se disfarçou e veio visitar Aracne sob a forma de uma velha, aconselhando-a a respeitar a experiência e a sabedoria dos anciãos e a reconhecer a seperioridade dos deuses.
- Se você se arrepender de suas palavras e pedir perdão, tenho certeza de que Palas a perdoará - disse.
- Você está é de miolo mole, sua velha. Quer dar conselho? Vá procurar suas netas... Eu me defendo sozinha. Palas têm medo de mim. Se não tivesse, já teria vindo me enterrar.
A velha deixou cair o disfarce e se revelou em todo o seu esplendo.
- Pois Palas veio, sua tonta!
As ninfas e todas as mulheres se prostraram diante da deusa, mas Aracne manteve seu deafio.
Sem perder tempo, cada uma das duas foi para um canto do enorme salão, com seus novelos, meadas, fios e seu tear.
Durante muito tempo, uma belíssima tapeçaria foi surgindo em cada ter. Palas fez questão de ilustra em seu bordado todas as histórias de mortais que tinham desafiados os deuses e os terríveis preços que tiveram que pagar por isso. Aracne, por outro lado, mostraram em sua tapeçaria os inúmeros crimes que os deuses já tinham cometidos, recriados com exatidão e minúcia de detalhes. Cada uma, ao final, rematou seu trabalho com uma preciosa moldura tecida.
Ninguém se surpreendeu com a perfeição da obra de Palas. Mas quem ficou surpresa foi à deusa, pois, por mais que procurasse o mínimo defeito na obra de Aracne, não conseguia encontrar uma única falha. Com raiva, bateu várias vezes com seu bastão na testa da tecelã.
Não suportando a dor, Aracne passou um fio no pescoço para se enforcar. Mas Palas teve pena e a segurou, suspensa no ar, dizendo:
- Você tem má índole e é vaidosa, mas tenho que respeitar sua arte. Não admito que morra. Porém, você e seus descendentes viverão sempre assim, suspensos o tempo todo.
E, ao partir, borrifou-lhe uma poção que fez o cabelo da moça cair, a cabeça e o corpo encolherem, os dedos crescerem, e a transformou para sempre numa aranha, condenada a fabricar fio e teia até o final dos tempos. Sempre com perfeição incomparável.
Ana Maria Machado